7 maneiras de fortalecer o vínculo com o filho mais velho quando o caçula chega

Quando o segundo filho chega, por mais que a família se prepare, é inevitável a transformação no relacionamento com o mais velho. Algumas estratégias podem ser úteis para você conseguir dedicar atenção ao primogênito, em meio ao turbilhão da rotina com um recém-nascido em casa. Confira as dicas.

Os meses de espera e preparo não garantem que você esteja livre de surpresas com as emoções que a chegada do segundo filho geram. “O que aconteceu? Como ela cresceu assim de algumas horas para cá?”. Foi o que pensei quando vi Marina, minha filha mais velha, pela primeira vez logo depois do parto do segundo, Lucas. Mais velha. De repente, fui atropelada pelo significado dessa expressão. Eu e meu marido estávamos embasbacados de amor pelo recém-nascido, mas, ao mesmo tempo, bem confusos. O que tinha se passado com a nossa bebê? Ela, que estava com 4 anos, parecia ter amadurecido num piscar de olhos. O que perdemos? Ela sentiria falta do que fomos antes? Como daríamos atenção suficiente a ela a partir daquele momento? “Com a diferença de tamanho, o cérebro de uma maneira ‘simplista’ equipara os dois irmãos e seleciona o bebê como frágil e o mais velho, como mais sábio, dono de si”, diz a terapeuta e educadora parental Raquel de Faria, da Casa Cuore (SP). Está explicado por que a nossa impressão era de que ela tinha passado por um estirão absurdo nos 30 minutos que dormiu, enquanto o caçula nascia.

Era isso. Por mais que tivéssemos nos preparado para ter um segundo bebê – e preparado a Marina para ganhar um irmão –, no instante em que isso, de fato, aconteceu houve um grande impacto nas nossas emoções. “O segundo filho traz uma conta inédita sobre a sensação de justiça na condição de pai e mãe porque o primogênito tinha a atenção exclusiva voltada para ele. Os pais estavam acostumados ao fato de que todo o tempo que eles escolhessem dedicar à parentalidade seria para aquela criança. A partir desse momento, é preciso dividir”, explica o psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral, do Instituto Aripe (SP). De acordo com ele, a segunda maternidade e paternidade nascem nessa angústia: quanto vou dar para o bebê e quanto vou dar para o filho maior? “Os adultos se questionam sobre como fica a sensação deles de equidade e justiça entre os dois seres, que eles amam e querem cuidar do mesmo jeito”, diz.

O pai entra como figura determinante para o primogênito logo no início, já que a mãe não pode ser substituída em uma das tarefas mais executadas nos primeiros dias de vida de um bebê: a amamentação. Em muitas famílias, ele acaba passando mais tempo com a criança, enquanto a mãe alimenta o recém-nascido ou descansa, entre os curtos períodos de sono. “O pai que toma para si a responsabilidade deixa de lado essa história de ‘pai que ajuda’. Ele está ali, naquele momento, amparando o filho na compreensão dessa nova situação”, diz o psicólogo.

A FICHA TEM QUE CAIR

Ainda durante a gravidez, não é incomum duvidar: “Será que é possível amar um outro filho como eu amo esse, que já tenho?”. A resposta parece óbvia, mas, na prática, a ficha demora a cair. É uma aflição, de repente, ter de pedir para o seu filho mais velho – sim, aquele que tinha sua dedicação integral, pelo menos no tempo em que você estava com ele – esperar, quando pede colo ou chama você para ajudá-lo a se limpar no banheiro, porque você está fazendo o irmão dele dormir. É torturante aguentar pacientemente a birra que quase sempre vem com a frustração depois de uma situação assim, ainda mais quando essas cenas se repetem e se repetem e se repetem. Várias. Vezes. Ao dia.

Mas, sejamos justos: para os pequenos, tudo é ainda mais complicado. “Os pais são maduros, vividos, têm a cognição pronta, emoções trabalhadas – e, ainda assim, têm dificuldade de lidar com a chegada do segundo filho. Então, imagine uma criança tendo de se virar com tudo isso?”, compara Amaral. Enquanto pai e mãe aprendem, eles mesmos, a reajustar seus papéis na nova configuração familiar, ainda que ela tenha sido planejada e esperada por, pelo menos, nove meses, eles também precisam dar suporte ao primogênito.

Sim, é normal que o mais velho fique confuso, tenha ciúmes, apresente comportamentos regressivos (como voltar a falar como um bebê ou fazer xixi na cama), e reaja até agressivamente ao irmão. A advogada Fernanda Misumi, 29 anos, mãe de Henrique, 3 anos, e Clarice, 1, conta que, no começo, foi tranquilo, mas o mais velho começou a empurrar e a jogar os brinquedos longe quando a irmã chegou na fase dos 8 meses, em que já interagia e engatinhava. “Ele queria chamar a atenção. No momento em que eu consegui compreender o sentimento dele e enxergar que também estava sendo difícil ter de dividir tudo – colo, tempo, brinquedo, tudo que sempre foi só dele – comecei a dedicar mais o tempo que eu tinha a ele. Aí as coisas mudaram”, relata.

O entendimento dos pais e a maneira como expressam os próprios sentimentos são fundamentais para ajudar o filho a lidar com as emoções diante do acontecimento que é a chegada de um novo membro da família. “É importante os adultos entenderem que a forma como eles, pais, veem tudo faz diferença. Não precisa rotular, nem colocar pesos desnecessários. Ao contrário. Eles devem reforçar que a vinda do irmão é algo bom. Por outro lado, podem deixar o canal aberto para o mais velho se expressar caso sinta saudade, falta de algo ou a mudança”, orienta a psicóloga e educadora parental Fernanda Perim, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

E é uma experiência positiva mesmo. É esperado que a criança tenha momentos de frustração, mas isso é fundamental para o desenvolvimento, de acordo com a psicóloga Vera Zimmermann, coordenadora do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O mais velho, de certa forma, terá uma experiência de exclusão, em alguns momentos, mas, por outro lado, ele ganha autonomia. É um presente. A sociedade transformou isso numa perda e isso fragiliza a criança, que perde o colo, mas ganha o prazer de caminhar. É uma evolução”, explica.

UMA NOVA HISTÓRIA

Eu já sabia que o pós-parto não era fácil, afinal, já tinha vivido aquilo antes. Inocente, achei que por ter “experiência” no assunto, tiraria de letra a segunda viagem. O que eu me esqueci de calcular foi que seria uma nova aventura e que, desta vez, eu não precisaria lidar apenas com a maternidade, mas com o fato de, de repente, ser mãe de dois. Ao contrário do que pensei, não era só uma operação de soma, mas também de multiplicação, de divisão e de subtração. Tudo ao mesmo tempo. Uma matemática complexa e sem nenhuma fórmula pronta para ajudar.

Eu queria muito aquele bebê que agora estava ali, nos meus braços. Mas eu agora sentia saudades daquela menina, que também era um bebê há tão pouco tempo e, de repente, tornou-se a filha mais velha. Sentia falta da exclusividade e do tempo que tinha só para ela. Tudo isso tem explicação. “O puerpério é um processo de luto, de cura, e nada cura mais uma mãe do que a presença e a conexão com um filho, principalmente o mais velho, com quem ela já tinha um relacionamento sólido. A mãe precisa estar com o coração tranquilo para curtir o bebê, e ela só vai conseguir isso se também estiver bem com o primogênito”, explica a psicóloga Fernanda Perim.

Hoje, o Lucas, nosso caçula, tem 1 ano e meio. Quando olho para trás, para aqueles dias lindos, mas nebulosos, consigo ver como a Marina,  de 5 anos, aprendeu e se desenvolveu com a chegada dele. Foi um puerpério para mim e um novo universo para ela. Uma família em formato inédito para todos nós. E seguimos aprendendo.

CONFIRA AS DICAS DE COMO CURTIR O FILHO MAIS VELHO, DEPOIS DA CHEGADA DO CAÇULA

1 –  UM TEMPO SÓ DE VOCÊS
Troca fralda, amamenta, põe para dormir. Começa de novo. Os ciclos com um recém-nascido são curtos e, assim, o mais velho fica à espera da sua vez. O ideal é separar ao menos uma parte da rotina para continuar fazendo com ele. O pai pode dar banho no recém-nascido (e aproveitar para reforçar esse vínculo), enquanto a mãe dá no mais velho, por exemplo. Assim, ele sabe que aquele momento continuará sendo dele. É possível levá-lo em pequenas escapadas, enquanto o pequeno fica com um cuidador: uma simples ida à padaria ajuda. Depois, conforme o bebê for crescendo e espaçando as mamadas, dá para combinar passeios exclusivos e um pouco mais esticados, como um cinema ou uma lanchonete que vocês curtam.

2 – NO SILÊNCIO
O tempo de sono do recém-nascido é precioso para você conseguir curtir a companhia do mais velho e ele, a sua. Então, o melhor é prolongá-lo. Por isso, pense em atividades que não façam barulho, como desenhar, montar um quebra-cabeças, pintar ou ler um livro juntos. Na rotina de pais cansados de dois (ou mais), às vezes, é possível até apelar para um desenho animado. Por que não? Mas, atenção: nada de celular na mão nessa hora! Aproveite para estar presente de verdade, faça comentários, dê risada e envolva-se na história com seu filho.

3 – SEM DIVISÕES
Dedicar-se ao filho mais velho também é possível se não rolar um tempo exclusivo para vocês como na dica 1. Dá para sentar no chão para brincar com o primogênito, com o recém-nascido no colo ou por perto, em uma cadeirinha de balanço. Isso ajuda seu filho a entender e absorver a nova configuração da família e saber que o bebê vem para integrar a família e se juntar a ele – e não para tirar a proximidade. Outra vantagem é que, quando o mais novo chora, você não precisa deixar seu filho e se ausentar para acudi-lo.

4 – AME-SE
Para ter mais tempo de qualidade com seu filho, você precisa estar bem. Não é fácil dar conta da nova rotina, com duas (ou, de novo, mais) crianças pequenas em casa. Por isso, seja gentil com você e permita-se descansar também. Não se culpe quando estiver com vontade de sair só (nem que seja para ir ao supermercado) ou tomar um banho demorado. Outros cuidadores podem fazer todas as atividades que listamos aqui. E vai ser ótimo para seus filhos estabelecerem ou reforçarem outras conexões, enquanto você recarrega as energias.

5 – VIAGEM NAS FOTOS
Depois que o bebê dormir, que tal mostrar ao seu filho fotos de quando ele também era bem pequeno, como o irmão é agora? Vale relembrar histórias gostosas, brincadeiras que fazia com ele, contar que ele também chorava, mamava no peito, não conseguia andar sozinho… Você vai matar a saudade dele na fase de bebê e ele vai exercitar a empatia pelas necessidades do caçula.

6 – AJUDANTE OFICIAL
Isso depende da disposição da criança e é preciso respeitá-la, mas uma possibilidade para seu filho valorizar o status de irmão mais velho e estar sempre perto de você é incluí-lo nos cuidados com o bebê. Ele pode ser nomeado o ajudante oficial na hora de pegar uma fralda ou de escolher uma roupa para o irmão depois do banho. Ao saber que tem uma função, o primogênito ganha uma responsabilidade e se vê como parte do grupo, que é a família, em vez de pensar que está sendo excluído.

7 – VOCÊ FAZ O SEU MELHOR
Os pais precisam se conscientizar de que não existe perfeição e de que as estratégias que escolheram são as que funcionam melhor ali. É preciso seguir a intuição. Afinal, não há fórmula. Os adultos vão errar, mas, aos poucos, encontrarão um caminho. Sem o peso de querer acertar tudo, a rotina fica mais leve e o tempo que você tem com cada um dos seus filhos será mais prazeroso.

 

Fonte: www.revistacrescer.globo.com/Familia/Irmaos/noticia/2019/04/7-maneiras-de-fortalecer-o-vinculo-com-o-filho-mais-velho-quando-o-cacula-chega.html?fbclid=IwAR3-yVSMedN3PUHo6bIz2bzkKCox-fiIOuJG_GfjrODPdMt72ZauEmjxWXs

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